Em 1778, a Impressão Régia (atual Imprensa Nacional) deu à estampa uma narrativa de viagem, vivida e redigida apenas alguns meses antes da sua publicação, relatando a rota atribulada da nau Nossa Senhora da Ajuda e S. Pedro de Alcântara entre o Rio de Janeiro e Lisboa.
A Relação, ou notícia particular da infeliz viagem da nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e S. Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro para a cidade de Lisboa…, de Elias Alexandre e Silva, é o primeiro título da coleção «Itinerários Portugueses», dirigida por Ana Paula Avelar, e que pretende dar a conhecer, de forma contextualizada, memórias de viagem publicadas pela Imprensa Nacional desde o final do século XVIII. A coleção, como explica Ana Paula Avelar, propõe-se «[…] revisitar textos que, sob a égide, primeiro, da Régia Oficina Tipográfica e, depois, da Imprensa Nacional, narraram diferentes viagens num arco temporal que se inicia na segunda metade do século XVIII e se prolonga pelos séculos seguintes, constituindo-se como discursos paradigmáticos de um tempo histórico onde se enlaça tradição e modernidade.» (p.14)
Neste primeiro volume, reedita-se o texto de Elias Alexandre e Silva, até hoje pouco conhecido do público, no qual relata detalhadamente uma viagem de navegação entre o Rio de Janeiro e Lisboa a bordo da nau em que se encontrava, desde os vários incidentes – que incluíram a perda do leme em alto mar e a sua extraordinária reconstrução – até à sua chegada a bom porto. O relato de sobrevivência desta nau à tempestuosa viagem reflete «[…] a perícia da sua equipagem que consegue ultrapassar as intempéries e conduzi-la a bom porto, fundeando-a de novo nas águas do Tejo nesse já distante dia de 23 de outubro de 1778, para contentamento de todos os que nela viajaram.» (Ana Paula Avelar, p. 14). Elias Alexandre e Silva, que era alferes de infantaria na data em que redigiu esta Relação ou Notícia Particular, dedicou o texto a José de Seabra da Silva, figura de relevo do reino, mas deixou uma ode final ao desembargador José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo, de quem seria filho.
A narrativa é contextualizada no seu tempo histórico por um texto introdutório de Ana Paula Avelar, sendo ainda acompanhada por um suporte iconográfico e um mapa de apoio que nos oferece uma visão geral da viagem descrita. Para além dos textos que enquadram a coleção e o presente volume, o livro inclui a transcrição anotada da edição de 1778, bem como índices remissivos dos termos náuticos e de termos gerais.
Um livro com interesse para o público em geral e que nos transporta para os desafios das viagens marítimas do final de setecentos.
Ana Paula Menino Avelar é Professora Associada com Agregação na Universidade Aberta, investigadora integrada no CHAM-FCSH-UNL e investigadora associada no Centro de História e no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Coordenou e participou em projetos de investigação nacionais e internacionais, sendo autora de vasta obra nas áreas dos Estudos Históricos, Asiáticos, Cultura Portuguesa e Orientalismo. Ao longo dos últimos anos tem desenvolvido investigação sobre o Renascimento em Portugal, centrando-a, nomeadamente, na cronística da Expansão Portuguesa e na edição de obras como a História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses de Fernão Lopes de Castanheda.