O escritor e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida foi distinguido em 2025 com o importante Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural, pelo seu contributo para “a afirmação da cultura da língua portuguesa no mundo”. Para a Imprensa Nacional é notável que o fundamento da atribuição deste prémio coincida com a nossa missão de defesa e promoção da cultura e da língua portuguesas. E sem dúvida que os nossos destinos já se cruzaram muitas vezes, não é verdade?
Tenho mais do que um cruzamento com a Imprensa Nacional, sempre experiências gostosas. Uma delas foi logo a primeira. Aconteceu aí por 1982 ou 83, era então Administrador precisamente Vasco Graça Moura. Numa das minhas viagens dos EUA a Lisboa, solicitei um encontro para lhe propor um livro sobre a questão da identidade nacional. Recebeu-me muito bem (eu era um novato; tinha terminado o doutoramento na Brown em 1980). Aceitou de braços abertos a minha proposta de livro. Acabei nunca enviando o manuscrito porque o projeto inicial foi crescendo e desdobrando-se, cada capítulo transformando-se em livro separado, publicados na Gradiva e na Quetzal. Volta e meia, Vasco Graça Moura, muito simpaticamente, perguntava-me por ele.
Como podemos olhar hoje para a importância dos livros e da literatura em língua portuguesa em Países e comunidades a que o Professor Onésimo está mais ligado, como nos Estados Unidos da América e no Canadá? Devemos falar mais de esperança, ou de preocupação?
Nos EUA, a comunidade portuguesa, maioritariamente açoriana, tem uma longa tradição de escrita. O mesmo acontece com a do Canadá, muito embora a emigração para esse país só tenha começado há setenta anos; daí terem surgido mais tarde os livros sobre a experiência de emigração. Tanto num como no outro país, a escrita em português foi de longe mais vasta do que noutros países de emigração portuguesa. O que vem acontecendo agora é a produção literária em inglês (e francês, no caso de Québec) de filhos e netos de emigrantes. Hoje é já significativa a lista de autores nos dois países.
Que nomes de jovens escritores em língua portuguesa, porventura ainda menos conhecidos, o Professor Onésimo gostaria de deixar aqui aconselhados?
Em Portugal a escritora luso-americana mais conhecida é Katherine Vaz; mas Frank X. Gaspar é um poeta com pelo menos cinco prémios nacionais (norte-americanos) de poesia. Não posso deixar de referir o polígrafo George Monteiro, meu colega na Brown, onde era catedrático de Literatura Americana. No Canadá, Anthony de Sa é um escritor de Toronto com pelo menos dois romances muito bem recebidos pela crítica. Também no Canadá, mas em Montréal, onde publicou em francês, temos agora Michael Gouveia, recentemente editado em tradução portuguesa na Imprensa Nacional. A lista de autores mais jovens é longa. A presença deles pode ser apreciada numa consulta à revista Gávea-Brown dedicada a estudos e letras luso-norte-americanas (assim mesmo, para incluir o Canadá), que fundei em 1980 na Brown University (fundei também a editora do mesmo nome, que editou mais de trinta livros, embora sobretudo de tradução do português para inglês) e ainda hoje continua a ser publicada semestralmente. De há alguns anos para cá, co-dirijo-a com Francisco Cota Fagundes, autor de, entre muitos livros, dois preciosos volumes autobiográficos. Vamberto Freitas, desde os anos 90 regressado aos Açores após quase três décadas na Califórnia, tem uma volumosa produção crítica recolhida em mais de uma dúzia de volumes sobre essa literatura transatlântica entre Portugal (em especial os Açores) com a América do Norte. Na Califórnia, Diniz Borges, da California State University Fresno, tem desempenhado também um papel crítico importante, acrescido de um notável trabalho na área de edição. Não posso de modo nenhum ignorar o trabalho editorial da Tagus Press, da University of Massachusetts Dartmouth, a que há anos estou também ligado. A sua lista de edições é diversa (traduções, estudos, originais em inglês) é respeitável.