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Entrevista a Inês Lourenço

Coleção Plural Inês Lourenço Poesia Prémio de Poesia

A Inês Lourenço venceu a edição de 2025 do Grande Prémio de Poesia Gil Vicente, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e Câmara Municipal de Guimarães, com o seu livro Casa de Nuvem, editado pela Imprensa Nacional, na coleção Plural, dirigida por Jorge Reis-Sá.  Antes de mais, muitos parabéns pelo merecido galardão. Que significado tem este prémio para a Inês Lourenço?

Para ser sincera, nunca me preocupei demasiado com prémios, porque me parece que frequentemente são atribuídos por circunstancialismos vários e nem sempre pelo mérito artístico. No caso deste, creio que tendo sido por unanimidade e sem qualquer previsão da minha parte, provocou-me uma boa sensação de ser lida e interpretada.

 

Numa vida dedicada à poesia, quais foram os momentos que agora vê como decisores?

Todos os momentos são decisores: o dia e o lugar onde nascemos, os grandes poetas que nos marcaram, as dores, as alegrias, as revoltas, os afetos, as revelações, as perdas, etc. Uma escrita alimenta-se de toda a circum-navegação da nossa existência.

 

Podemos olhar para Casa de Nuvem, como o livro que reúne a carreira poética da Inês Lourenço? E depois dele, o que podemos esperar?

A palavra “carreira” não tem muito a ver comigo. Pensei sempre que ia morrer jovem, talvez por evocações rimbaudeanas e não só, mas afinal vou durando… Já escrevi coisas posteriores a este livro, que aguardam revisão e enquadramento final.

 

A Inês Lourenço é a grande figura em destaque na edição de 2026 da Feira do Livro do Porto. Como vê a homenagem deste evento cultural da sua cidade natal e onde sempre viveu? A cidade do Porto pesou, de alguma forma, na sua poesia?

Sim, a minha cidade é uma das temáticas (se assim posso definir) da minha poesia. Nesse sentido elaborei uma antologia intitulada «Dois Cimbalinos Escaldados – vivências portuenses», onde reuni textos com referências implícitas e explícitas à cidade do Porto. Também organizei e editei, a partir desta cidade, entre 1987 e 1999 uma publicação de poesia, os “Cadernos de Poesia HÍFEN”. Onde colaboraram com textos inéditos grande parte dos poetas portugueses da época e também de outros idiomas. Quanto ao destaque da Feira do Livro deste ano, sinto-me, sem dúvida, muito grata mas também algo apreensiva, pois quando se escreve o texto poético, pelo menos no meu caso, não estamos a pensar em representatividades próprias, mas apenas na das palavras, que elegemos na página.

 

Na vida, o eu é realmente importante para a Inês Lourenço, hoje em dia?

Não sei se estou a interpretar bem a pergunta, mas suponho que esta se refere ao sujeito lírico, que é diferente do sujeito biográfico. Claro que na escrita poética é sempre o sujeito lírico ou poético, que prevalece e muitas vezes discordando do biográfico. Mas se a pergunta contempla a oposição social “individual/coletivo”, parece-me que qualquer coletivo é mais valioso segundo as intersubjetividades que contiver, isto é: o valor individual contribui para a qualidade de qualquer coletivo em que se insira.

 

Como é que gostava que o seu trabalho fosse lido pelas gerações futuras? Qual o legado que gostaria de deixar?

Não tenho a presunção de ser lida pelas gerações futuras; nem sequer sabemos se algum dirigente político a puxar para a psicopatia, carregará em certos botões que reduzem países à Idade da Pedra… Parece que já houve um que assim se exprimiu; mais um bocadito e havendo retorno, lá vai o planeta inteiro. Mas gostaria que a Poesia, enquanto veículo privilegiado de reflexão e emoção fosse realmente reconhecida como uma via para enriquecimento e proveito mental dos seres humanos e não como ornamento ou entretenimento ou coisa de habilidosos da palavra.

 

Que autores lê regularmente?

Desde muito jovem, num tempo sem televisão nem internet, em que o espaço das férias era preenchido maioritariamente por leitura e praia, li tudo o que de notável podia arranjar, desde Dostoiévsky a Tolstoi, Dickens, Balzac, Hemingway, Sartre, Camus, Yourcenar, Duras, Jorge Luís Borges, Proust, Kundera, etc. Atualmente, além de continuar a acompanhar as edições de poesia de diversos idiomas, leio sobretudo ensaio. Não quero deixar de assinalar a obra de George Steiner, que muito aprecio e a que retorno de vez em quando. Mas dois livros despertam a minha curiosidade e interesse neste momento:  «O murmúrio» (2025) de Christian Bobin e «Ludwig Wittgenstein-filosofia na era dos aviões» (2026) de Anthony Gottlieb.

 

Pode-nos deixar três conselhos de leitura, três títulos incontornáveis da literatura portuguesa?

Pergunta muito difícil, para mim. Porque irei escolher preferencialmente poetas. Nas obras dos   três principais heterónimos de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis) esgotaria logo o número pretendido. Não poderei deixar de nomear o Camões lírico, as obras completas de Sophia e Jorge de Sena, entre muitos outros poetas admiráveis da nossa literatura. Uma palavra para a nossa grande ficção onde incluiria o nosso Nobel, Agustina e os incontornáveis Camilo e Eça.

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