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Camilo Pessanha em Dia de São Valentim

Publicado a 14 Fev, 2018 - 17:08
Camilo Pessanha Poesia

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca dum abrigo;
E apesar disso, crês? nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito,
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde, e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo.
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Rufando apressado,
E bamboleado,
Bonet posto ao lado,
Garboso, o tambor
Avança em redor
Do campo de amor…

Com força, soldado!
A passo dobrado!
Bem bamboleado!
Amores te bafejem.
Que as moças te beijem.
Que os moços te invejem. 


Mas ai, ó soldado!
Ó triste alienado!
Por mais exaltado
Que o toque reclame,

Ninguém que te chame…
Ninguém que te ame… 

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançá-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
— A última, de antes do teu noivado.
A sete chaves, — a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei de o levar.
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

Camilo Pessanha,  Clepsidra, pp. 76-78, 2014

Camilo Pessanha
Clepsidra
Carlos Reis e Barbara Spaggiari
Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2014

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