O desejo, que Sua Alteza Real tem manifestado, de saber todos os eclipses do sol, que hão de ser visíveis em Lisboa neste século, junto ao interesse, que geralmente excita o anúncio de tais fenómenos, me tem determinado a empreender este trabalho.

A edição científica conheceu, no nosso país, um momento breve, mas de produção particularmente intensa, através da Casa Literária do Arco do Cego, fundada em 1799 sob direção do naturalista e frade franciscano José Mariano da Conceição Veloso. Esta tipografia foi posteriormente integrada na Impressão Régia (atual Imprensa Nacional), que herdou parte da sua produção editorial.
Entre as mais de 80 edições produzidas em menos de três anos, encontra-se hoje conservada na biblioteca da Imprensa Nacional esta Memoria relativa aos Eclipses do sol visiveis em Lisboa, da autoria de Marie Charles Théodore Damoiseau de Monfort (1768-1846). O Barão Damoiseau de Monfort foi um astrónomo francês cuja carreira científica se desenrolou parcialmente em Lisboa, onde optou por residir após a Revolução Francesa. Na capital portuguesa, foi Capitão Tenente da Brigada Real da Marinha, trabalhando como diretor-adjunto do respetivo Observatório Real. Em 1801, ainda sob chancela da entretanto extinta tipografia do Arco do Cego, publicou esta Memoria relativa aos Eclipses do sol visiveis em Lisboa…, ilustrada com gravuras da autoria de Romão Eloy de Almeida, que era então diretor da gravura da mesma tipografia. Neste pequeno livro, Monfort apresentou uma previsão do calendário de eclipses previstos para todo o século XIX, que conclui «poder fixar em 38». O estudo resultou, segundo o próprio autor, do «desejo, que Sua Alteza Real tem manifestado, de saber todos os eclipses do sol, que hão de ser visíveis em Lisboa neste século, junto ao interesse, que geralmente excita o anúncio de tais fenómenos […]». Além desta Memória, Damoiseau Monfort publicou também, no contexto português, Ephemerides nauticas, ou diario astronomico para 1800…, pela Academia das Ciências de Lisboa.
Esta Memoria relativa aos eclipses... e outras obras científicas do Arco do Cego são mencionadas por Miguel Figueira de Faria, em A Idade do Papel. A Imagem Impressa. Volume II — Cultura Visual em Portugal, das Luzes à Revolução. A propósito do papel incontornável desempenhado por esta tipografia no plano da cultura visual, o autor explica que:
«A fraca densidade da componente da ilustração no ciclo setecentista da Imprensa Régia teve no breve projeto editorial desenvolvido na Casa Literária do Arco do Cego um interessante contraponto. A notável presença que a imagem impressa atingiu nas suas edições, merece que procuremos esclarecer a forma como foi instituída a nova tipografia.» (p.296)
A versão completa da edição pode ser consultada em formato digital aqui >>