Este volume das Obras completas de Maria Ondina Braga reúne os dois romances da autora, publicados com um intervalo de treze anos. A Personagem (1978), obra inaugural no género romanesco, distingue-se pela adoção da forma diarística, que imprime à narrativa uma estrutura fragmentária e uma tonalidade intimista, marcas distintivas da produção da escritora bracarense. Com efeito, é possível observar, desde os seus primeiros escritos, uma tendência para a subversão dos limites genéricos, numa escrita de natureza híbrida e de forte pendor pessoal. (…) Esta mesma «arte da fuga» — entendida simultaneamente como estratégia narrativa e expressão de um impulso existencial — sustenta a tessitura de Noturno em Macau (1991), romance paradigmático que condensa o espírito errante da autora e explora diversas facetas da condição feminina. Nesta narrativa, Maria Ondina Braga transporta-nos para a Cidade do Santo Nome de Deus de Macau nos anos sessenta, lugar envolto numa atmosfera opressiva, saturado de segredos e de silêncios que reverberam na espessura da noite.
A vasta produção literária de Maria Ondina Braga delineia, com delicadeza e contundência, os contornos da condição feminina, num universo ficcional povoado de mulheres que carregam a dor como herança e a solidão como destino. Em toda a sua obra e em diversas declarações públicas, a escritora revela uma consciência aguda da mundividência feminina, assumindo uma posição crítica face às estruturas sociais e aos dispositivos simbólicos que relegam as mulheres para papéis secundários. (in Prefácio)
Maria Ondina Braga (1922-2003) é a escritora mais cosmopolita da literatura portuguesa do século XX. Nascida em Braga, norte de Portugal, cedo deixa a cidade natal para tomar os caminhos do mundo. Viveu em Inglaterra e França antes de ser professora e tradutora em Angola, Goa, Macau, Pequim. O seu percurso de vida e literário confunde-se com a ideia de deslocação ou viagem, numa cartografia que passa pelos quatro continentes, do Brasil ao Sri Lanka ou Singapura. Esta condição itinerante e multicultural constitui a marca de água de uma escrita que experimenta vários géneros, da crónica ao conto, das memórias ao romance, além da poesia e diários ou notas de viagem. Colaborou em vários jornais e em revistas.
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