Por ocasião do dia do seu aniversário, José Alberto Quaresma evoca o seu amigo e colega Nuno Júdice, neste texto inédito.
NO TEU ENCALCE
Sigo as tuas as impressões digitais, desde a primeira metade do século passado. Tu assomavas. Eu não tardava. Cinco meses depois, comecei também a ouvir o vento nas figueiras da nossa terra comum.
Fui à sorrelfa no teu encalce. Deixavas indícios e iluminavas veredas sombrias. Manchavas de belo as cercanias do mundo, a partir da Mexilhoeira Grande. As tuas faúlhas não eram incandescentes, mas acendiam a alma. Fogueteiam por aí nos infinitos livros teus que se abrem pela Primavera, como tu, neste teu dia 29 de abril.
Quiseste que Primeiro Poema fosse o último, por ora. Como num dos poemas deste livro, desembarco nele. “Uma voz indica-me o caminho”, a tua. Não sabes se será o penúltimo, ou o antepenúltimo, depois de ti, contigo. A Manuela continua a tratar de ti, com amor sussurrado e vontade firme.
Uma paixão confessa, Teixeira Gomes, levou-nos, há quase dez anos, ao trabalho de casa e de arquivo. Há muito que lhe devassava a vida. E tu já o sobrelevavas em engenho literário.
Metemos mãos à sua obra completa, para a Imprensa Nacional. Revimos os três primeiros livros, o de abertura que prefaciámos e os seguintes, com Helena Carvalhão Buescu e Helder Macedo. Já não viste o Regresso a Teixeira Gomes – Estudos, título que sugeriste, e onde o teu «Teixeira Gomes Leitor» revela livros e autores que o fascinaram. À tua, juntámos as vozes de Nuno Severiano Teixeira, Luís Filipe Castro Mendes, Fernando Rosas, Fernando António Baptista Pereira, Laurinda Paz e eu próprio.
Deixaste-me sozinho há dois anos. Para aqui ando a transcrever as largas dezenas de páginas de gatafunhos inéditos de Teixeira Gomes, para os volumes IV e V. Sei que pasmarias a adentrar-te nesta sua escrita luminosa e ainda desconhecida.
Não te importes. Quando me abeirar de ti, um dia, conto-te. Até lá, vou prosseguindo. Sei que estarás sempre a serenar-me nas dúvidas. Tenho o privilégio de ir sabendo de ti pelos vestígios que deixaste por todo lado e pela tinta fresca dos teus livros, como Primeiro Poema.
José Alberto Quaresma
29 Abril 2026