Neste volume das Obras Completas de Maria Ondina Braga, reunimos as últimas narrativas breves publicadas pela autora, que faleceu em Braga, em março de 2003. Trata-se de quatro livros, agora reeditados segundo uma cronologia decrescente, tendo em conta a data de publicação, a atualização ortográfica e a correção de algumas gralhas. Apresentamos, em primeiro lugar, O Jantar Chinês e Outros Contos, publicado em 2004 (…). Encontramos, logo depois, os fragmentos autobiográficos de Quando o Claustro É sem Ninguém (2000), onde a escritora reformula, como já vimos, algumas passagens de Estátua de Sal, praticando uma forma de reescrita frequente na sua trajetória literária. Poderemos ler, em seguida, A Filha do Juramento (1995), que se apresenta como um conjunto de contos», mesmo se apenas o primeiro texto, «Dona Silvana», corresponde a esta modalidade, já que quase todas as outras narrativas do livro se aparentam a crónicas e apontamentos onde a autora desenvolve um certo número de temáticas também presentes noutras obras, como a sedução da viagem, o interesse pelas tradições, a consciência sensorial do mundo, a atenção ao feminino, as reminiscências juvenis que sublinham a importância da casa e dos rituais religiosos, a curiosidade pelas culturas orientais, ou ainda o pendor meditativo da escrita. Por fim, A Rosa-de-Jericó (1992) reúne uma série de «contos escolhidos», (…) que se trata de «uma seleção de contos da Autora, alguns já publicados em livro», aos quais se acrescentam três inéditos. Veremos que, nesta coletânea, a escritora ilustra mais uma vez a variedade temática da sua obra sempre em movimento, conjugando memórias e intensidades, transparências e opacidades, graças à delicadeza de uma voz profundamente implicada com o Mesmo e com o Diverso.
Nas narrativas breves (…), Maria Ondina Braga procede a uma alquimia criativa cujo fermento é o constante trabalho de rememoração e reinvenção que reconstrói trajetórias passadas, funcionando por fluxos de imagens que organizam o caos da memória e ajudam a melhor compreender um certo número de escrevivências, que conciliam harmoniosamente a anterioridade com a interioridade, as recordações mais íntimas com certas histórias coletivas, o fascínio pela alteridade com a apreensão de um legado cultural onde distinguimos ainda a incorporação e a transformação das tradições eruditas e populares, canalizadas pelos livros inventariados que pertencem à biblioteca dos afetos. A nosso ver, não se trata de uma escrita elaborada apenas ao acaso das recordações, nem de uma memória cultural cumulativa, mas antes de uma prática artística, lúcida e exigente, que convida constantemente à descoberta, ao prazer da leitura e à partilha fecunda, transferindo para o leitor desconhecido uma parte da herança recebida, isto é, transformando-o em novo herdeiro que, por sua vez, tem a possibilidade de filtrar e criticar os textos que lhe são oferecidos pelo milagre da literatura. (in Prefácio)
Maria Ondina Braga (1922-2003) é a escritora mais cosmopolita da literatura portuguesa do século XX. Nascida em Braga, norte de Portugal, cedo deixa a cidade natal para tomar os caminhos do mundo. Viveu em Inglaterra e França antes de ser professora e tradutora em Angola, Goa, Macau, Pequim. O seu percurso de vida e literário confunde-se com a ideia de deslocação ou viagem, numa cartografia que passa pelos quatro continentes, do Brasil ao Sri Lanka ou Singapura. Esta condição itinerante e multicultural constitui a marca de água de uma escrita que experimenta vários géneros, da crónica ao conto, das memórias ao romance, além da poesia e diários ou notas de viagem. Colaborou em vários jornais e em revistas.
ver na loja