Muitos parabéns, Patricia Gomes Lucas, pela sua obra “Frederico Ressano Garcia – Urbanista e Político”, editada pela Imprensa Nacional, ter vencido a edição de 2025 do Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga. Este prémio foi uma surpresa para si? Que significado lhe atribui?
Muito obrigada. A atribuição deste prémio foi uma grande surpresa, mas também uma grande honra. Não é todos os dias que nos encontramos na posição de receber um prémio que homenageia um dos maiores escritores portugueses do século XX.
Escrever a biografia de Frederico Ressano Garcia com a qualidade, a profundidade, a extensão e a diversidade desta obra, deve ter exigido um enorme trabalho de investigação, muitos livros, muitos documentos, muitas conversas, pelo menos. Foi assim Patrícia? Foi um trabalho longo e “duro”?
A maior dificuldade para completar este trabalho prendeu-se, na verdade, com o objetivo que tinha sido definido: elaborar uma biografia de Frederico Ressano Garcia que acompanhasse a sua vida, debruçando-se tanto sobre o seu papel no desenvolvimento urbanístico de Lisboa, como sobre as diversas atividades políticas que desempenhou. E revelaram-se duas áreas com um grande manancial de informação, pela quantidade atípica de funções que teve ou de entidades com as quais colaborou. Acresce a isto que a documentação, além do espólio pessoal fornecido pela família, se encontrava dispersa, o que implicou um esforço de localizar fontes e conjugá-las de forma a tornar mais legível a sua vida.
Quais os fatores que a levaram a identificar os momentos chave na vida do Ressano Garcia?
Os momentos chave falavam por si próprios, pela marca que deixaram para as gerações seguintes: os diferentes projetos urbanísticos que dirigiu em Lisboa, a sua ação em diferentes pastas ministeriais, os extensos discursos parlamentares publicados sobre temas de grande importância; só era necessário encadeá-los numa visão mais abrangente.
Visto à luz do século XXI, seria uma personagem controversa?
Talvez não fosse controverso, mas acredito que iria manter a integridade e a postura firme que caracterizaram a sua ação. Não teria receios de enfrentar poderes instituídos quando os seus princípios estivessem em causa, e sabemos que nem sempre essa atitude nos facilita a vida.
Entre o resultado de uma investigação e uma obra literária que nasce de todos esses conteúdos, há ainda um trabalho imenso. Que preocupações teve a Patrícia ao escrever o livro partindo de tantos factos históricos?
Escrever uma biografia é sempre um trabalho agridoce, porque não temos forma de saber tudo o que aconteceu ao longo daquela vida, e podem ficar de fora elementos muito importantes apenas por a documentação não ter chegado aos nossos dias. Por outro lado, é também um esforço de desbaste de um sem número de vivências quotidianas que talvez não sejam relevantes para o leitor, sem perder de vista o equilíbrio que um texto assim merece: não queremos focar só um ou dois momentos, não queremos apagar o menos bom porque também isso é parte da complexidade da figura.
Escrever uma biografia, é também um trabalho de curadoria, a gestão de opiniões divergentes sobre a personalidade estudada, e relatos que podem ser contraditórios podem ser um grande desafio. Como é que lidou com essa gestão?
Ter acesso ao espólio pessoa de Frederico Ressano Garcia tornou-se vantajoso nesse sentido, permitindo começar a analisar a vida do biografado a partir das suas próprias experiências. Depois é o trabalho exaustivo de tentar encontrar a maior variedade possível de fontes para garantir que nenhuma perspectiva ficava sem contraditório: se um jornal do partido político no qual Ressano Garcia militava fazia uma afirmação sobre ele, então tínhamos de procurar qual tinha sido a afirmação feita pelos jornais da oposição na mesma altura. Mais uma vez, é uma questão de equilíbrio.
Frederico Ressano Garcia mantém a sua importância e atualidade para a cidade de Lisboa?
Em grande medida o seu legado mantém-se na geografia da cidade de Lisboa, e isso é talvez o exemplo mais revelador da importância da sua visão para a cidade: as transformações que Ressano Garcia idealizou consolidaram-se e tornaram-se parte integrante dos espaços em que vivemos, mais de 100 anos depois.
Como é que definiria o arco da vida de Ressano Garcia? Um arco perfeito ou uma viagem atribulada?
Provavelmente nenhuma vida é um arco perfeito, e o caso de Frederico Ressano Garcia não foi excepção. O seu percurso foi atribulado, mas teve a força para conseguir enfrentar as dificuldades e deixar-nos um legado palpável na cidade de Lisboa, e um exemplo de cidadania comprometida com valores na vida política.