Detalhes de documento

  • Arquivo
    INCM/Arquivo Histórico da Imprensa Nacional
  • Cota
    057
  • Tipo de documento
    Exposição
  • De:
    Administrador Geral
  • Para:
    Ministro do Reino
Transcrição

“(…) Julgo de meu dever levar ao conhecimento de V. Ex.ª alguns factos e circunstâncias, que ocorreram nesta Repartição por ocasião do calamitoso incêndio, que na tarde e noite de anteontem destruiu o belo edifício do extinto Colégio dos Nobres, onde se achavam estabelecidas as Escolas Politécnica e do Exército, para que V. Ex.ª, se sirva elevá-los à presença de S. Magestade. Apenas se deu o sinal do fogo fui informado logo de que era no Colégio, saí imediatamente a certificar-me da verdade, e vendo já vastante fumo sobre o telhado da casa dos Actos, e noutro imediato, voltei no mesmo instante a este Estabelecimento, e dando ordem para que se suspendessem os trabalhos nas diferentes oficinas, e me acompanhassem todos os empregados e operários, saí com a bomba que há nesta casa, e com uns cem homens todos empregados dela se principiaram a fazer os possíveis esforços para atalhar o incendio, e para salvar os objectos, que pareciam mais arriscados. Alguns empregados tinham já saído espontaneamente para acudir a tamanho perigo. Ainda sob a impressão doloroza de tão grande desastre, não posso deixar de dizer a V. Ex.ª que tenho a satisfação de poder assegurar que todos os Empregados da Imprensa Nacional e até os jornaleiros estranhos, que nela se ocupavam, rivalizaram em zelo e em infatigável actividade e descrição neste apertado lance das tarde até à meia noite a maior parte deles e alguns até à manhã do dia de ontem não cessaram de prestar os mais valiosos serviços. Tinha eu previamente ordenado que ficassem no Estabelecimento alguns homens e os fieis dos armazéns para tomarem conta dos objectos que se fossem salvando; estes mesmos empregados quando podiam dispensar-se nos seus respectivos postos ajudaram a conduzir as coisas, que se iam sucessivamente subtraindo ao incendio. Logo que se principiou o salvamento tive a prevenção de colocar-me à porta do Colégio, para fazer que tudo fosse conduzido para a Imprensa Nacional – Julguei que era muito conveniente (e o resultado o mostrou), que se não distribuissem tantas coisas por diferentes lugares, e que era fácil acontecer em ocasião de tanto tumulto e confusão. Neste importante serviço foram os Empregados da Imprensa logo seguidos e coadjuvados pelos lentes, por grande nº de alunos das suas escolas e por muitas outras pessoas, entre as quais havia bastantes distintas pela sua posição social, como Deputados, Oficiais Militares, Funcionários Públicos, etcª. Não devo omitir que alguns lentes, o inspector dos incêndios, alunos e empregados das Escolas se achavam já no local do desastre, trabalhando em tudo, que as circunstancias indicavam como mais convenientes. Depois de ter estado a bomba da Imprensa por algum tempo a operar contra o incêndio, quando este tomou maior desenvolvimento, que pareceu impossível de atalhar-se no próprio edifício, e que ameaçava os da vizinhança veio a bomba para a frente da Imprensa, e aí se empregou em aguar os telhados, panelas e paredes, para prevernir, que o incêndio se lhe comunicasse. Recolhiam-se nos armazéns os diferentes objectos que entraram incessantemente. Na oficina tipográfica e na casa da minha habitação se prestaram os socorros possíveis a algumas pessoas que tinham ficado mal tratadas no seu generoso empenho de acudir ao incendio. Entre estas vieram mais gravemente injuriadas o Snr. José Feliciano de Castilho, e uns cinco marinheiros franceses contusos e dois ingleses. Ao Snr. Castilho prestou logo os aucilios da arte o Snr. António Henriques da Silveira. Os marinheiros franceses foram tratados pelos seus respectivos cirurgiões, e visitados pelos comandantes dos navios a que pertenciam. S. Magestade El Rei o Snr. D.Fernando, que por muito tempo esteve no lugar do incêndio dignou-se a subir à oficina, para visitar os feridos, tratando com a maior afabilidade os oficiais que lhe assistiam, e dirigindo a todos expressões da sua usual benevolência. Não houve felizmente desgraça que fizesse recear perigo de vida. Alguns oficiais franceses, que siponho serem comandantes dos navios, cujas tripulações acudiram ao incendio, tiveram a obrigante urbanidade de vir ontem agradecer o acolhimento, que aqui se dera aos seus marinheiros, quando todo o favor era da parte deles, e da nossa um dever de gratidão esse acolhimento, sentindo eu que as circunstancias só me permitissem fazer tão pouco. O Snr. Chefe do Estabelecimento maior da 1ª Divisão militar, veio a este Estabelecimento oferecer-me quaisquer auxilios de força armada, que eu julgasse necessário para guardar os objectos salvados, e conforme a minha insinuação mandou estacionar na Imprensa um piquete comandado por um oficial, que fex colocar sentinelas no lugares convenientes. Antes de vir esta força um outro oficial, que não menciono porque não o conheço tinha posto à minha disposição alguns soldados para este fim. Igualmente me foram oferecidos soldados [sic.] pelos Snr.s Capitães Batalha e Barrote, que também aceitei. Os soldados da Guarda Municipal fizeram um serviço tão pesado como valioso; porque se conservaram por muitas horas no seus respectivos postos. O Ex.mo Comandante da Guarda Municipal passou toda a noite neste Estabelecimento. Devo dizer a V., que numa ocasião de tamanho apuro, em que era necessário olhar para tanta coisa, e tomar imediatas providencias em diversos lugares deste vasto Edifício, eu não poderia ter conserguido os resultados que se alcançaram, se não fosse incessantemente coadjuvado pelo zelo dos empregados desta Contadoria, que me substituiam em toda a parte, em que me era impossível aparecer. Segundo tenho ouvido dizer aos Lentes das duas escolas, salvaram-se com poucas excepções, e essas de menor importancia, todos os objectos que lhe pertenciam – Todas as Machinas e utensilios da Aula de Física e Química, os Instrumentos Astronómicos, os Livros das duas Bibliotecas, os Papéis dos dois Cartorios, as imagens, vasos sagrados e alfaias da igreja se salvaram, e tudo foi recolhido neste Estabelecimento onde se acham na melhor ordem possível, sendo pricipalmente para admirar, que tantas machinas delicadas com aparelhos de vidro e tantos objectos de vidro não sofressem dano considerável, sendo nesta parte muito considerável, digo muito insignificante a perda. Tal foi o cuidado e inteligencia das pessoas que fizeram este importante serviço – S. Magestade El Rei o Snr. D. Fernando dignou-se ontem visitar segunda vez este Estabelecimento para ver os efeitos salvados, e mostrou muita satisfação por encontrar tantos e em tão bom estado. S. Ex.ª o Snr.Ministro dos Negócios Estrangeiros, e o Ex.mo Snr. Barão de Telheiras, aqui estiveram também ontem dando ordens e direcções oportunas. Ontem e hoje têm-se ocupado os Lentes das duas Escolas com os seus emregados em acondicionar todas as coisas do melhor modo possível, em escolher os livros e papeis dos seus respectivos cartorios, sendo de esperar do seu assiduo empenho, que até amanhã fique ultimado este trabalho no qual os tenho coadjuvado e coadjuvarei por todos os meios ao meu alcance. Por esta ocasião julgo dever dizer a V. Ex.ª, que alguns dos operários deste Estabelecimento ficaram tão fatigados e mal tratados, que não puderam hoje empregar-se nos seus trabalhos ordinários, em consequencia do que me determinei a dar numa pequena gratificação aos que julgo estarem no caso de a merecer e precisar mais pelas suas circunstâncias, convencido de que esta resolução está de perfeito acordo com as benévolas intenções do Governo de S. Magestade. Tais são as ocorrencias, que me parecem dignas de mencionar-se; é possível, que alguma coisa me tenha esquecido, ou que não chegasse ao meu conhecimento o que devesse referir-se; em circunstâncias de tal natureza há sempre dificuldade invencível em recolher informações e narrar todos os factos com exactidão; espero portanto que V. Ex.ª se dignará relevar qualquer omissão involuntária a este respeito. (…) Lisboa etc.ª 24 de Abril de 1843. Ill.mo e Ex.mo Snr. António Bernardo da Costa Cabral = O Administrador Geral = José Frederico Pereira Marecos.” (pp. 83-85)