Desemprego no setor gráfico e críticas ao Comissariado do Desemprego.

  • Referência
    «O Comissariado do Desemprego e a Indústria Gráfica», O Gráfico. Órgão do Sindicato Unitário da Indústria Gráfica de Lisboa, n.º 3, janeiro de 1936, p.5.
Assunto

Críticas ao funcionamento do Comissariado do Desemprego e às limitações do recurso à Imprensa Nacional para absorção do desemprego no setor gráfico.

Ficha

«A poder duma luta intensa e sistemática de alguns camaradas, à frente da Direção do nosso sindicato legal, em prol do número sempre crescente de tipógrafos desempregados não só por motivo de crise mas mais pelas leis coercitivas da expansão da Imprensa (a caserneira censura), o governo resolveu atirar um osso aos famintos, empregando alguns numa dependência própria da I.N., calculando que assim se calariam todos, uns entretidos a roer o osso, outros por falta de forças para gritar, consequência do menor número. Assim não aconteceu, continuando os protestos perante os enganos à solução da crise na nossa indústria. […]
Mais tarde, sob a pressão da jornada de fevereiro de 1932 contra o desemprego, organizada e dirigida pelo P.C. e C.I.S., foi criado o “Comissariado do Desemprego” e decretado um “roubo” de 2% nos salários dos que trabalham para prover aos que não trabalham. Aquela instituição por sua vez, criou um estabelecimento onde empregar os gráficos do “Chômage”, ali alimentado por este fundo e por verba da I.N.. O C. do D. “arrumou” neste estabelecimento alguns “chomeurs” – compositores impressores e encadernadores, esquecendo os profissionais das outras modalidades da Indústria – e, muito comodamente, deu por “resolvida a crise de trabalho na Indústria Gráfica”.
E os que não se empregaram lá? E os que embora empregados, têm de se sujeitar às prepotências, às infames condições de trabalho que o patronato impõe, sob a ameaça constante do desemprego? Que caso tem feito o C.D. dos gráficos que continuam desocupados alguns há bastante tempo? Para onde vai o dinheiro infamissimamente roubado aos parcos salários dos que trabalham?
Na fogaça do governo fascista para a burla das eleições da Assembleia Nacional e Câmara Corporativa foram incumbidas as oficinas gráficas da C.M.L. de confecionar os respetivos cadernos eleitorais. Para isso foi requisitado ao Comissariado do Desemprego o pessoal necessário. Que fez o C.D.? Enviou sete ou oito homens para os 40 ou 50 requisitados, alegando que não havia mais gente! Ainda destes 7 ou 8 alguns receberam duas guias e até alguns empregados há bastante tempo foram mandados chamar? E onde param os processos respeitantes a tantos tipógrafos desempregados e inscritos, alguns há bastante tempo? Ou seria por não existir verba para pagar aos homens requisitados? […]
Se o C.D. foi criado para debelar a crise de trabalho, não seria um princípio a velar pelos que, embora empregados, se encontram sob a ameaça do terrível vulcão?
O patronato ajudado pela indiferença das autoridades salazar-fascistas, baixa os ordenados até onde muito bem entendem e obrigam-nos a trabalhar, sob a ameaça de despedimentos, horas extraordinárias, sem percentagem, rindo-se dos decretos em que o governo capitalista de Salazar estabeleceu a “nova” defesa neste sentido, roubando-nos uma regalia há tanto conquistada.
E a regulamentação das máquinas? um problema tão Capital para a solução da crise que se atravessa?
Mas não! O C.D. não foi criado para isso! A sua missão é outra.
Ele serve apenas, com os seus fundos, descarada e violentamente roubados, à nossa magra bolsa, para manter, à “tripa forra”, as hordas infamantes da U.N. a escumalha de videirinhos de que o “Estado Novo” se serve para as suas manifestações, para as suas “eleições”!!!»