Atividade da Imprensa Nacional, da edição à fundição de tipos.

  • Referência
    CARVALHO, António, «Imprensa Nacional Casa da Moeda. Tradição de qualidade e competência profissional», A Capital, de 26 de fevereiro de 1980.
Assunto

Continuação da reportagem de 25 de fevereiro, sobre a história da Imprensa Nacional e atividade da INCM após a fusão com a Casa da Moeda, da edição e formação à fundição de tipos.

Ficha

«Quem se dirige à Imprensa Nacional para adquirir um qualquer exemplar do “Diário da República” dificilmente pode imaginar o mundo complexo que vive no interior do velho casarão da Rua da Escola Politécnica. A agitação desse imenso cortiço esconde-se num quase anonimato e o público acaba por supor que a atividade da Imprensa Nacional reduz-se apenas à folha oficial e aos impressos de consumo obrigatório… Mas, na realidade, a lista das suas publicações é muito mais longa: inclui a Conta Geral do Estado, em três línguas; os planos orçamentais do Ministério das Finanças; as estatísticas das instalações elétricas do País; modelos e formulários diversos; o diário das sessões da Assembleia da República; o Boletim do Trabalho e Emprego, primeira e segunda série; o Boletim da Propriedade Industrial; o Boletim da Direção-Geral dos Serviços Industriais; além das três séries do “Diário da República”, com os respetivos suplementos, e das publicações editoriais próprias da empresa, de que falaremos mais adiante.

Todo este trabalho, minucioso e da maior responsabilidade, como se calcula, exige grande cuidado e grande especialização por parte do pessoal da Imprensa Nacional. A esses fatores encontra-se aliada uma tradição de qualidade, sempre presente na empresa, nos seus diversos departamentos: desde a tipografia, capaz de compor, por exemplo, páginas completas cobertas de números e mapas estatísticos, até à revisão, que criou fama pela sua excecional competência, passando pela encadernação, onde trabalham operários especializados, na restauração de livros antigos (e que lamenta, agora, não poder, por falta de encomendas, fazer os trabalhos de luxo que executava até há cinco anos atrás…).
Essa tradição de qualidade e competência profissional deu à empresa um prestígio internacional que se fez sentir essencialmente no último quartel do século XIX e cujos efeitos, em parte, chegaram até hoje, nomeadamente no que diz respeito à elaboração de catálogos e de tabelas ou do próprio livro clássico.

Uma empresa familiar
De salientar que essa tradição de qualidade é assumida pelo próprio pessoal, que se mostra consciente do facto de a Imprensa Nacional ser considerada como um modelo de perfeição no campo das artes gráficas. Efetivamente, existe da parte destes operários uma grande consciência do dever profissional, mantida mesmo no mais aceso do período revolucionário, além de uma grande dedicação à casa; […].
A dedicação à casa, assim como o gosto pela tradição revelaram-se, também, no facto de os seus trabalhadores aceitarem mal que o recrutamento de pessoal para certos postos de trabalho se faça fora da empresa: muitas vezes fazem pressão para que sejam os seus próprios familiares a preencher essas vagas. E, assim, é possível encontrar um caso de três gerações dentro da mesma família, trabalhando todas nesta “velha casa”.
Não se pense, no entanto, que a “velha casa” se recusa a aceitar inovações. Pelo contrário, neste momento decorre uma reconversão dos processos antiquados de impressão, envolvendo pessoal e equipamentos. […]
Especialistas na fundição de tipos para composição tipográfica, os operários da Imprensa Nacional são também excelentes criadores de novos tipos. E sublinhe-se que a comercialização desta atividade se tem revelado cada vez mais rendível. “Vendemos mais nos últimos três anos do que nos trinta anos anteriores… E não vendemos mais ainda porque não temos capacidade para produzir tanto quanto seria necessário para acorrer às encomendas..”.
[…]
A Imprensa Nacional pode também orgulhar-se de possuir e manter em pleno funcionamento uma escola de artes gráficas, especializada na composição em carateres gregos ou árabes, na qual são formados os novos aprendizes, quer sejam da própria Imprensa Nacional, quer venham de fora. É, portanto, uma escola ao serviço do País.
Falando ainda de inovações e de condições de trabalho, convém salientar que a atual administração está perfeitamente consciente das péssimas condições em que diversos setores se encontram, nomeadamente o pessoal administrativo, recebendo remuneração inferior à de outras empresas com o mesmo estatuto de funcionalismo público. Por esse motivo, tenta-se a realização efetiva de uma atualização dos salários, elevando-os aos níveis das outras empresas do mesmo tipo. […]»