Daimon reúne a poesia de António Carlos Cortez, num livro da coleção Plural, coordenada por Jorge Reis-Sá, e editada pela Imprensa Nacional.
O que sente e pensa o autor ao olhar para este livro acabado de chegar às suas mãos? É um percurso de vida, desde logo literária? E depois dele?
O que penso e sinto é relativamente simples. Por um lado, sinto-me honrado por estar publicado numa colecção fundada por Vasco Graça Moura, poeta, tradutor, ensaísta e ficcionista admirável e de quem fui amigo. É, sem dúvida, honroso publicar na Plural. Por outro lado, sendo esta colecção coordenada hoje por um editor e amigo, poeta de que gosto muito, Jorge Reis-Sá, constitui um motivo de grande satisfação. Daimon é uma revisão do caminho, ou dos caminhos que a minha poesia veio fazendo e com esta poesia reunida talvez os leitores possam ver melhor que linhas de força, que temática, que linguagem tenho tentado edificar desde 1999 até hoje. Tendo integrado um inédito nesta reunião poética, Terraplanagem, conjunto de de 22 poemas longos, não tenho, de momento, nenhum livro de poemas em processo de fabricação… Tenho, é certo, um conjunto de poemas longos que tenho vindo a trabalhar de há 6 meses para cá, mas não tenho isso ainda bem resolvido. O título, em todo o caso, tenho: Cavalos-Marinhos. Mas não sairá tão cedo quanto isso. Ensaio, isso sim, tenho praticamente acabado: é um livro sobre a poesia portuguesa 2000-2025, onde reúno o que saiu na página de crítica de poesia que tive quer no Jornal de Letras (2004-2025), quer na revista Relâmpago, de que fui colaborador assíduo entre 2007 até 2023. Esse projeto de crítica reunida contempla um total de 50 autores, consagrados e revelações, alguns até pouco conhecidos, poetas sobre cujos livros escrevi ao longo deste primeiro quarto-de-século. O título será: Palavra de Poesia – Textos críticos reunidos. Penso em dois volumes.
Ao longo do livro – o que quer dizer também ao longo do tempo -, podemos apercebermo-nos do modo como a poesia de António Carlos Cortez foi mudando, nos temas, nas formas, na escrita. Como vê a sua poesia escrita há 25 anos e como a compara com a que escreve agora.
Julgo que a minha poesia mudou, mas nada de substancial, quanto aos temas, mudou. A minha temática obedece a uma espécie de movimento em rizoma, de movimento em expansão em que um tema dá origem a outro tema e este outro está associado ao que se segue… É uma poesia que parte do real, das circunstâncias vividas por alguém que vive o que todos vivem, transformando o vivido em pensado e o pensado em escrita. Creio que é uma poesia que pensa permanentemente sobre o tempo, a escrita; é uma poesia dos lugares – de cidades, cafés, esplanadas, casas, bares -, e dos tempos – a juventude, o corpo, os corpos, encontros e desencontros que são também coisas criadas pela imaginação, pela ficção… É ao nível da forma que ocorrem mudanças mais significativas. Numa primeira fase (entre o meu primeiro livro, Ritos de Passagem, de 1999, e o meu quarto, À Flor da Pele, de 2008), interessaram-me formas regulares (ritmos em redondilha, o soneto, o decassílabo, o rimance), alterando essas formas, inovando dentro de uma tradição que não quero esquecer. Não fiz e não faço tábua-rasa do passado literário. A essa fase talvez tenham sobrevindo duas outras: uma 2ª fase, medial, que contempla uma trilogia (2010, Depois de Dezembro; Linha de Fogo, 2012 e O Nome Negro, 2013), poemas onde formas fixas convivem com formas mais modernas (o poema em verso livre e o poema em prosa), a que se sucede uma outra trilogia: Animais Feridos, de 2016, Corvos Cobras Chacais, de 2017, e Jaguar, 2019. Nestes dois últimos é o poema em prosa o que tento explorar até ao limite da imagem e da metáfora, numa espécie de descida aos infernos da poesia como alquimia, laboratório transformador da palavra. Em 2021 publiquei um livro que estabelece uma fronteira, Diamante. Aí congrego o soneto de matriz camoniana, ou gastoniana (Gastão Cruz é um dos meus confessados mestres, com David e Yeats, Rimbaud e Cesário, Cohen e Alfonso Costafreda, de que traduzi 77 poemas para português). Ainda em 2021 publiquei Skin Deep, um livro com um Lado A e um Lado B com poemas em prosa e outros em verso coloquial, mas sempre procurando efeitos rítmicos e melódicos; livro em torno de músicas, de bandas sonoras que me fazem escrever, viajando no tempo (The Doors, Leonard Cohen, The Smiths, Blondie, The Stranglers, Killing Joke, Rádio Macau…) A estes livros de 2021 sucedeu Condor, publicado em 2025, na Caminho. São 27 poemas longos, meditações que respondem, na sintaxe e no esforço de construção engenhosa que nesses poemas depositei, às dez canções de Camões e a Jorge de Sena e Ruy Belo, mestres do poema longo – essa forma que Poe disse já não poder ser lida pelo leitor moderno. Quis provar que sim: que pode ser lida. De resto, dois poetas meus contemporâneos são excelentes cultores dessa forma difícil: José Ricardo Nunes e Rui Cóias.
Tem dedicado a sua vida ao ensino, desde logo de literatura portuguesa. Falamos de muitos autores e de milhares de alunos, certamente. A literatura portuguesa, para professores e alunos, é, na sua maioria, uma paixão? A sua actividade docente, impregnada de leituras, entra como nos seus versos ?
Sou professor há 25 anos. Vai para 26… No meu caso a literatura foi uma vocação segura e forte desde sempre. Fui aluno de grandes professores que me marcaram profundamente, já pelo saber que detinham, já pela forma humana como se relacionaram comigo. Artur Anselmo, Luís Kruz, Silvina Rodrigues Lopes, Abel Barros Baptista, Rui Zink, eis alguns do meu tempo na FCSH, na Nova e de cujas aulas tenho excelentes memórias. Artur Anselmo, em especial, pela sua clássica pedagogia e a sua erudição, vejo-o como um mestre. Já no meu doutoramento, igualmente tive professores muito importantes. Nunca duvidei da minha vocação docente. Não tenho televisão, não tenho carta de condução, não tenho filhos e escolhi muito cedo – com as aulas no Ensino Secundário que recebi de um grande professor, o filólogo e camonista, discípulo de António Salgado Júnior e de David Mourão-Ferrreira, o professor José de Almeida Moura – uma vida absolutamente dedicada aos livros. Fui livreiro na Bertrand do Chiado e se não fosse professor adorava ser editor. Alimento ainda essa esperança de ter uma pequena editora só dedicada à poesia e ao ensaio sobre poesia. As minhas leituras são múltiplas. Leio muito ensaio sobre literatura. Sofro de insónias e leio poesia até muito tarde e recentemente descobri o prazer de traduzir… Mas não sou um tradutor. Não tenho essa tarimba, sei-o bem. Na minha poesia as aulas não são motivo literário, ainda que haja um poema intitulado «Sala de Aula», do livro de 2007, À Flor da Pele.
A escritora Lídia Jorge apresentou o seu livro no dia 31 de outubro. Alguma ideia da escritora consagrada, na sua intervenção, a que gostasse de voltar aqui?
Talvez esta: Daimon – Poesia Reunida 1996/99-2026 eu deverei vivê-lo, como disse a Lídia, amiga minha desde cedo e desde sempre, como «alegria interior». Daimon é, sem dúvida, para mim, um livro importante. Mas quero vivê-lo desse modo: com a alegria interior, de forma serena, leve, livre.