A Professora Raquel Henriques da Silva tem, desde há muito, uma relação estreita com a Imprensa Nacional, presente em tantas coleções, tantos livros, tantas apresentações e eventos. Quer-nos recordar um momento particular, ao longo destes anos, que veja com grande satisfação?
A INCM é a editora mais generosa para os museus portugueses e, por isso, as recordações são muitas mas prefiro sempre recordar o mais recente: a publicação do meu livrinho «Retrato, vós não sois meu», uma reflexão bastante pessoal sobre retrato e autorrepresentação através da figura de Camões que motivou alguns artistas maiores do Século XIX, entre Domingos António Sequeira e António Carneiro.
A Imprensa Nacional acaba de publicar os livros Arte em Portugal no Século XIX, e Arte em Portugal no Século XX, do Professor José-Augusto França, que conheceu muito bem, e com quem trabalhou muitos anos. A coordenação destas edições, que certamente vão constituir um momento grande da edição em Portugal, foi dominada porque princípios ou critérios ou preocupações?
Estas obras integram a «Biblioteca José-Augusto França» que Duarte Azinheira lhe propôs, tendo a seleção dos 16 volumes previstos sido elaborada pelo próprio autor. Em relação aos primeiros volumes publicados, foi ele que fez a revisão dos textos com alguma actualização. Tal aconteceu ainda para «Arte em Portugal no século XIX», mas já não (devido ao seu falecimento em 2021) para «A Arte em Portugal no século XX». Por isso, respeitámos o texto como ele se encontrava na última edição, acrescentando, em ambas as obras, prefácios que refletem sobre a sua importância como fundadoras da moderna historiografia da arte portuguesa da época contemporânea. O trabalho mais exaustivo realizado pela Clara Vilar, e com o meu apoio, foi obter os direitos de reprodução das imagens que José-Augusto França selecionara para acompanhar o texto. Houve casos, mas minoritários, que não foi possível obter ou as fotografias das obras ou os seus direitos de uso, pelo que propus a sua substituição, procurando seguir o mais escrupulosamente possível a linha de pensamento do autor.
Quer-nos falar de dois ou três livros que não estejam disponíveis no mercado, e que gostaria de ver editados ou reeditados em Portugal?
Basta citar um, no âmbito das histórias gerais que motivaram esta conversa: «Nineteenth Century Art – A Critical History», coordenada por Stephen Eisenman com a colaboração de um conjunto de grandes historiadores da arte. A 1º edição é de 1994, e a 5ª, substancialmente ampliada, é de 2007. Seria um feito memorável!
Refletindo sobre a história da arte em Portugal, qual o estado da arte, nos dias presentes? No ensino, na cultura, na edição, por exemplo.
De um modo geral, é um sector dinâmico em todas essas vertentes. No ensino, área que melhor conheço, associado naturalmente à investigação, os progressos são notáveis e razoavelmente distribuídos por todo o país. Na cultura, a actualização é dificultada pelo quase congelamento de carreiras, nos museus e organismos patrimoniais dependentes da administração central, o que gera muito emprego precário e ausência de expectativas. Na edição, no campo da história da arte como noutros, faltam públicos leitores mas também a presença nas livrarias de obras fundamentais mas já editadas há alguns anos.