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Entrevista com Rui Miguel Abreu

Carlos Paredes Coleção Grandes Vidas Portuguesas Rui Miguel Abreu

O Rui acabou de publicar, em conjunto com o ilustrador Pedro Burgos, o livro Carlos Paredes, É Preciso Um País, na coleção infantojuvenil Grandes Vidas Portuguesas, editada pela Imprensa Nacional e pela Pato Lógico. É este o seu primeiro texto infantojuvenil? Quer falar-nos desta sua experiência, do desafio, do mais fácil, do mais difícil…?

Sim, penso que este é o meu primeiro texto pensado exclusivamente para este tão específico segmento de público. É também a primeira ficção que assino, embora, como perceberão os leitores, este seja uma ficção muito ancorada numa história bem real que recorre, por isso mesmo, a factos muito concretos de vários episódios da vida pessoal e artística de Carlos Paredes. O desafio foi muito bem vindo. Já há bastante tempo que acalentava esta vontade de assinar um projeto destes e a vida e obra de Carlos Paredes são fontes de um fascínio antigo.

Curiosamente, foi difícil conter o texto. Esta colecção tem limites muito concretos em termos de tamanho e eu não me podia alongar demasiado, o que implicou eleger alguns episódios muito especiais da vida de Paredes, o que é complicado já que toda a sua vida foi especial. O livro foi escrito em ano de centenário do mestre e as fontes de informação eram abundantes pelo que chegar aos factos concretos da sua biografia não foi complicado. Gostei muito de imaginar a aura de história de espionagem em que tentei envolver este enredo e de rever algumas referências nesse domínio, do cinema à literatura. No final até me pus a pensar que além de um livro há também por aqui um filme em potência.

 

O livro é ilustrado, como todos os da coleção. Como foi este trabalho de uma “escrita” a duas mãos? Foi o texto que ancorou as ilustrações, ou o Rui que escreveu ao sabor das ilustrações?

A escolha do Pedro Burgos, que confesso que não conhecia, foi do André Letria e devo dizer que foi profundamente acertada. Enviei-lhe o primeiro do arranque da história para ele ter uma primeira impressão do tom e do estilo e os resultados não demoraram a aparecer. Comecei por ver os desenhos ainda sem cor e gostei logo da visão e do traço do Pedro. O resultado final está extraordinário. Acho que ele captou muito, muito bem as nuances da história que aqui se tenta relatar.

 

Partindo do princípio de que escrever um livro sobre Carlos Paredes exigiu bastantes pesquisas, tratando-se, para mais, de um livro destinado a um público jovem, que expetativas tem o Rui, ou não, de que este livro possa trazer de novo, de importante, de mágico, aos jovens?

A maior expectativa é que quem leia o livro, qualquer que seja a sua idade, fique com vontade de conhecer a obra de mestre Paredes, se porventura ainda não a conhecer, ou de a voltar a escutar, se já a conhecer. E acho igualmente importante, no caso dos leitores mais jovens, que este livro possa contribuir pelo menos um pouco para um conhecimento mais aprofundado da história. Numa época em que certos valores conquistados no 25 de Abril de 1974 começam a ser questionados e até eliminados, creio ser importante que se perceba tudo aquilo por que passaram as pessoas que lutaram contra a ditadura. Houve muito sofrimento antes dos cravos terem sido postos nos canos das armas. E sim já houve em tempos um país em que músicos e poetas, pintores e gente do campo, das fábricas, de diferentes sectores da sociedade, viam a sua liberdade ser negada simplesmente por sonharem com um país diferente.

 

O que é que a música do Carlos Paredes ainda pode significar hoje?

Tanto quanto sempre significou. Tanto como as músicas de José Afonso ou Amália ou John Coltrane ou Mozart continuam a significar porque as grandes obras têm o condão de se agarrarem ao tempo e manterem-se sempre presentes. Hoje assistimos, em diferentes territórios da música, da pop ao fado e do jazz às músicas eruditas, a uma certa revisitação das nossas raízes mais populares e tradicionais. Paredes inventou um novo papel para a guitarra portuguesa, apresentou-a ao mundo e provou que tinha a capacidade de ressoar, como qualquer outro instrumento mais nobre, nas melhores salas do mundo. E por isso a obra que ele nos legou, e que continua disponível para que todos a possam ouvir, faz mais sentido do que nunca.

 

Numa curta frase, como identificaria Carlos Paredes?

Conheci e entrevistei Carlos Paredes em duas ocasiões. Posso assegurar que era tão genial quanto simples e modesto no trato. É raro encontrar essas duas qualidades combinadas num artista de tamanha dimensão.

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