Entrevista ao Negócios de 11 de maio de 2018
com Lúcia Crespo e Miguel Baltazar
[A Acrópole de Atenas e Auschwitz] são dois lugares sagrados. É preciso relembrar as pessoas como eram os lugares, antes de terem sido invadidos. A partir do momento em que o turismo se tornou uma coisa barata, hordas de selvagens têm ocupado lugares sagrados. Hoje seria impossível fazer a fotografia da Acrópole. Eu ainda toquei nas pedras, ainda mexi nelas. Auschwitz tornou-se um parque temático.
(…) O On the road do Kerouac também foi importantíssimo, mas aí o que me agradava era a ideia de alguém atravessar um país, descobrir um continente e vê-lo de outra maneira. Atraía‑me a ideia de descobrir um mundo novo.
(…)
Quando conheci a democracia e a liberdade em Inglaterra é que percebi aquilo que tinha perdido.
(…)
O que eu queria era ar livre. E queria viver. Foi o que aconteceu quando cheguei a Londres e, desde então, nunca mais parei.
Estava em França quando começou a surgir um racismo terrível, instigado pela Frente Nacional e pelo Jean-Marie Le Pen, em relação aos árabes que lá viviam, e decidi ir ver afinal quem eram os «infiéis». Fui para o Cairo, passei lá 15 dias fabulosos, fiz excelentes fotografias, voltei para Paris, pedi uma bolsa e deram-me uma Villa Médicis, o que me permitiu viajar por países árabes durante mais de três anos. Depois tive outra bolsa. Na verdade, todo o projeto […], entre a primeira e a última viagem, durou 12 anos (…). Fiz Egito, Síria, Jordânia, atravessei o deserto Wadi Rum a pé, fiz um pouco o percurso do Lawrence da Arábia, cheguei a apanhar um táxi para Beirute e a última viagem foi ao Iémen. Mas, neste entretanto, tive um trabalho que me levou a Auschwitz, e no Iémen compreendi que já não estava ali a fazer nada, já tinha cumprido tudo o que havia para cumprir e o que eu tinha era de enfrentar antigos fantasmas, recentes, portugueses, e mais profundamente alemães. Percebi que tinha de ir realmente à ferida mais profunda.
Excertos da entrevista ao Negócios
publicada no suplemento Weekend
de 11 de maio de 2018
Para ler na íntegra aqui: