Curso de Artes Gráficas da Imprensa Nacional.

  • Referência
    «Rapazes dos 14 anos 16 anos aprendem artes gráficas na Imprensa Nacional recebendo um salário de 40 escudos por dia», Diário Popular, de 23 de fevereiro de 1973, p. 4.
Assunto

Reportagem e entrevistas a alunos do curso de Artes Gráficas da Imprensa Nacional.

Ficha

«- Como te chamas?
– Manuel Carlos Santos Vidal.
– Quantos anos tens?
– 15.
– Porque é que te inscreveste neste curso?
– Para ganhar dinheiro. Estava a estudar à noite, de dia não fazia nada e resolvi trabalhar para ajudar o meu pai.
– Mas gostas de trabalhar em tipografias?
– Muito.
– O curso é difícil?
– Não.
Numa oficina muito bem arrumada, ali à Imprensa Nacional (rua da Escola Politécnica), duas dezenas de rapazes trabalhavam cuidadosamente “à caixa” (compondo textos em letras tipográficas que manejavam, uma a uma, formando as palavras e as frases). Pertenciam ao curso experimental de artes gráficas, instituído de se recriar o o gosto por uma profissão da maior importância – mesmo perante as transformações tecnológicas surgidas neste domínio. O ambiente era de disciplina: silêncio, aplicação, gosto pelo trabalho que cada um estava a executar.
Entrevistámos outro aluno:
– Como te chamas?
– José António Martins.
– Quantos anos tens?
– 15.
– Porque escolheste este curso?
– Porque o meu pai é cá tipógrafo.
– Estudas à noite?
– Estudo.
– Onde?
– No externato Bocage.
A visita era acompanhada pelo diretor do curso, dr. Guilhermino Pires, que nos disse:
– Procurámos criar um curso técnico que fosse complementar do ensino médio. Por isso, a par do trabalho da oficina, os nossos alunos têm aulas de Francês, Tecnologia, Física Laboratorial, Físico Químicas, desenho, Matemática, História e Geografia, Língua Pátria. Isto no primeiro ano. No segundo, em vez de Francês, haverá Inglês e, em vez de Português e História, daremos História de expressão gráfica das artes.
[…]
Perguntámos ao dr. Guilhermino Pires:
– Quanto recebe cada aluno?
– 40 escudos por dia.
– Estamos, então, perante o princípio segundo o qual os estudantes devem receber salários?
– Não é bem isso, disse-nos. Entendemos que os cursos técnicos devem ser remunerados, ao contrário dos cursos científicos. O estudante de cursos técnicos deve ser pago, para permitir a subsistência do aluno e o seu melhor rendimento. Equivale, enfim, a uma bolsa de estudo.
– E os alunos assinaram algum contrato com a Imprensa Nacional? – inquirimos.
– Não. Em alguns países, como na Holanda, os alunos nestas condições assinam um contrato de prestação de serviços durante três anos à empresa que lhes ministra os cursos. Aqui recusamo-nos a seguir esse método. Estamos confiados na mística tradicional da Imprensa Nacional, segundo a qual o ensino chega, em muitos casos, a transmitir-se de pais para filhos. Esperamos que quantos aqui aprendem fiquem vinculados à instituição que os acolheu.
A Imprensa Nacional é uma das instituições de maior tradição no campo das artes gráficas em Portugal. A sua reforma do ensino da composição tipográfica data de 1844 […].
O dr. Guilhermino Pires acompanhou-nos, depois, numa visita às instalações da Imprensa Nacional, mostrando-nos especialmente a secção de gravura onde se confecionam as letras-tipo.
– Esperamos atingir a maior perfeição neste domínio, disse-nos – para impedir a importação de tipos. Pensamos conseguir, brevemente, um nível europeu.
Sob nova administração, transformada em empresa pública, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda preocupa-se com o campo do ensino. Eis uma iniciativa útil, particularmente quando visa a valorização do operário português por meio dos mais modernos métodos de ensino e, até, através do interessante princípio do pagamento do trabalho escolar.»